GREENING: Manejo além das cercas

O greening é uma doença que ataca todos os tipos de citros e é considerada a principal ameaça à citricultura mundial. A doença foi detectada no Brasil pela primeira vez em 2004 no estado de São Paulo e logo depois já estava presente no Paraná e Minas Gerais. Nos Estados Unidos foi detectada em 2005 na Flórida, em dez anos derrubou a produção de laranjas do estado que era líder nacional em 69% e aumentou os custos de produção em 85% no mesmo período. Diferente dos Estados Unidos o Brasil adotou estratégias de controle mais rigorosas, tanto dentro das propriedades citrícolas, como em áreas rurais não comerciais e urbanas. Isso tem permitido ao Brasil manter a primeira posição na produção mundial de laranjas (34%) e de suco de laranja (61%).

Agente causal da doença e seu inseto vetor

A doença é mais conhecida como greening, mas também pode ser chamada de huanglonbing e HLB. É causada por bactérias, sendo a Candidatus Liberibacter asiaticus a principal causadora da doença no Brasil, presente em 99% das plantas infectadas. Todos os tipos de citros, laranjas, tangerinas, mexericas, limas-ácidas e limões podem ser atacados pelo greening.  O patógeno se aloja nos vasos do floema e rapidamente atinge todas as partes da planta, raízes, ramos, folhas e frutos. É por isso que a poda dos ramos não é suficiente para livrar a planta do patógeno.

Já a disseminação entre plantas ocorre pelo psilídeo Diaphorina citri. O inseto adquire a bactéria ao se alimentar em uma planta infectada e a transmite ao se alimentar nas plantas sadias.  Como não há cura para as plantas infectadas, o monitoramento e controle do inseto, a erradicação das plantas doentes dentro das propriedades e eliminação de hospedeiros da doença e do inseto vetor no entorno das áreas produtoras são medidas de manejo essenciais.

Monitoramento do inseto

O psilídeo passa pelas fases de ovo, ninfa e adulto. Os adultos possuem cerca de 3 mm de comprimento e coloração branco acinzentada. As fêmeas colam cerca de 800 ovos em média, preferencialmente nas brotações. As ninfas são achatadas e amareladas, apresentam baixa mobilidade e eliminam substância esbranquiçada durante a alimentação. Essa espécie completa o ciclo de ovo-adulto em 15 dias no verão e em 40 dias no inverno.

Fonte: Bugwood.org

A infestação da área inicia pela bordadura, cerca de 70% dos insetos são encontrados nas plantas periféricas da lavoura. Assim, o exame visual de plantas à procura dos insetos deve ser realizado semanalmente, com caminhamento em espiral no sentido borda-centro do talhão.  O monitor de campo inspeciona de três a cinco ramos, preferencialmente com brotações, à procura de ninfas e adultos, e a face inferior das folhas à procura de adultos. Quando encontrado o primeiro psilídeo, já é indicado necessidade de controle no pomar.

Outra opção para monitorar essa praga é utilização de armadilhas adesivas amarelas para atração dos insetos adultos. As armadilhas devem ser instaladas na extremidade dos ramos no terço superior das árvores das bordaduras, com a face adesiva voltada para fora do talhão. Este monitoramento deve ser realizado principalmente nas áreas periféricas da propriedade. O monitor de campo precisa estar treinado para reconhecer o psilídeo entre tantos outros insetos capturados na armadilha. As leituras são semanais e a substituída das armadilhas quinzenais, ou sempre que apresentar necessidade.

O método da armadilha é 30 vezes mais eficiente para detecção do psilídeo em comparação com o exame visual de plantas, pois realiza a captura constante dos insetos.

Inspeção de plantas doentes

Em plantas doentes se observa folhas e ramos amarelados, quando jovens, e clorose verde-amarelo, quando maduros. Geralmente ocorre a desfolha precoce e a rebrota de novas folhas no lugar, porém pequenas, as vezes com a nervura amarelada e áspera. Os frutos ficam pequenos e deformados, apresentam cor alaranjada na região de inserção do pedúnculo, sabor amargo, sementes abortadas e escuras, amadurecimento irregular e queda prematura.

Fonte: Fundecitrus

A equipe de monitoramento pode realizar as avaliações a pé em pomares de até 2,5 metros de altura, inspecionando todas as plantas do talhão. Em pomares com altura superior, é recomendado o uso de plataforma acoplada ao trator. A eficiência das inspeções na detecção de plantas com sintomas pode variar de 30 a 70%. Sendo assim, pelo menos quatro inspeções devem ser realizadas no ano, principalmente entre os meses de fevereiro e julho, período em que os sintomas são mais visíveis.

Quando detectada a presença da doença na propriedade a erradicação da planta doente é obrigatória. A multa para o citricultor que não cumpre a lei varia de 501 a 3.500 UFESPs (o valor da UFESP em 2020 é de R$ 27,61). O cumprimento dessa estratégia de manejo contribui para manter os índices da doença em níveis baixos na propriedade.

Manejo regional

A eliminação de plantas de citros e de murtas em áreas rurais não comerciais e em áreas urbanas, diminui o repositório da bactéria que causa a doença e desfavorece a multiplicação e contaminação do inseto responsável pela disseminação do patógeno na região. Nesse sentido, produtores, instituições públicas e privadas têm trabalhado em parceria para identificar e substituir plantas cítricas por outras espécies frutíferas e murtas, também conhecida por dama-da-noite, por outras espécies ornamentais.

Primeiramente o citricultor deve mapear as plantas hospedeiras em um raio de pelo menos 5 km em torno de sua área de produção de laranjas. Depois de identificadas as áreas problemáticas, a Fundecitrus em São Paulo (as prefeituras em outros estados) conscientiza seus proprietários sobre a importância de se eliminar as plantas hospedeiras a fim de se evitar prejuízos aos pomares comerciais, à economia e geração de empregos da região. Geralmente 90% da população aceita a substituição das plantas por outras frutíferas e ornamentais. Quando isso não é possível, é recomendado ao proprietário sobre a necessidade de aplicar inseticidas nas plantas durante o período de brotações para controle do psilídeo, ou liberar a vespinha Tamarixia radiata para controle das ninfas dessa praga.

O sucesso no combate ao greening para garantir a sustentabilidade econômica e social da cadeia produtiva citrícola no Brasil depende de ações coordenadas e cooperação de todos.


Referências

AYRES, A. et al. Manejo do greening: 10 mandamentos para o sucesso no controle da doença.  Araraquara-SP, Fundecitrus, 67 p.

MIRANDA, M.P. 2019. Manual de Psilídeo Diaphorina citri: medidas essenciais de Controle. Araraquara-SP, Fundecitrus, 19 p.

GIRARDI, E.A. et. al. 2011. Guia de identificação do Huanglongbing (HLB, Ex-greening). Cruz das Almas-BA, Embrapa Mandioca e Fruticultura, 34 p.

http://unidoscontraogreening.com.br/

Patricia L. Soares | Eng. Agrônoma, entomologista

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